text written and published for group show
in Espirito Santo Convent Art Gallery, Loulé, 2011

O que é um limite? Onde está o limite da nossa visão? O que vemos do mundo e com que detalhe? São questões que o trabalho recente de João Grama coloca e aprofunda. Num processo de pesquisa iniciado no Curso Experimental de Arte Contemporânea "Mobilehome", que teve lugar em Loulé no ano passado, João Grama tem vindo a percorrer o concelho de Loulé conduzido pelas linhas desenhadas pelos cursos de água, entre margens, procurando passagens, pontos de encontro, casualidades significantes, pequenos encontros que confirmam a pertinência da busca. Caminhamos para nos encontrarmos naquilo que não conhecemos, mas sobretudo naquilo que nos é familiar e que vemos com olhar renovado.

As imagens, que são apresentadas pela primeira vez nesta exposição, constituem-se como uma etapa dessa pesquisa e denotam várias características que as unificam enquanto série: são recolhidas num mesmo território e em meio rural, sempre guiadas pela proximidade da água, desenhando portanto um percurso pela paisagem, tomando os vários matizes da vegetação, do céu, da terra ou da água como denso campo de observação de onde emergem detalhes só denunciados pelo estado de máxima atenção, faculdade que em ultima instância guiou o artista pelo terreno.

Vemos árvores, canaviais, arbustos, superficies aquosas, mas só vemos mesmo aquilo que está na imagem (ou que é a imagem) se olharmos com demora e intenção. Aí, é um mundo novo que se revela, uma visão nova a que ganhamos. É esse o trabalho que a João Grama interessa realizar. A partir de um indício descoberto ao longo de uma caminhada, um fio condutor, sistematizou todo um modo de olhar que é também um modo de conhecer. Tudo se materializa pela imagem. Ela revela-nos pequenas diferenças, infimas percepções, o contorno de uma folha verde sobre as monocromáticas linhas desenhadas pelo canavial, os amontoados de pedras, canas, raízes, caules, que se acumulam trazidos pela corrente, são outros tantos fenómenos, outros tantos encontros. Tudo flui, tudo está em movimento permanente, até e sobretudo o nosso olhar e o nosso pensamento.

(Nuno Faria, Maio 2011)

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What is a limit? Where is the limit of our vision? What do we see in the world and in what detail? These are issues that João Grama’s recent work points out and tries to deepen. In a search process initiated in the Course of Experimental Contemporary Art "mobilehome," which took place last year in Loulé, João Grama has been touring the Loulé county conducted by the lines drawn by the water courses, between margins, looking for passages, meeting points, significant casualties, small gatherings that confirm the relevance of the search. We walk to find ourselves in what we do not know, but especially in what is familiar and what we see with new eyes.

Images in this exhibition are presented for the first time and they should be seen as a step in this research. They symbolize different features that unify them as a series: are collected in the same territory and in rural areas, always guided by the proximity of water, thus drawing a journey through the landscape, taking the various hues of vegetation, sky, land or water as a dense field of observation from which emerge details only reported by the state of utmost attention, college that ultimately led the artist through the field work.

We see trees, reeds, shrubs, aqueous surfaces, but we only see what is in the image (or who is the image) if we look with time and intention. Then, and there, a new world is revealed, a new vision. This is the type of work that really matters to João Grama. From an evidence discovered during a walk, a thread, João has builted a systematic way of looking, which is also a way of knowing and understanding the world. Everything is embodied by an image. It reveals small differences, subtle perceptions, the outline of a green leaf on monochrome lines drawn by sugarcane fields, the heaps of stones, reeds, roots, accumulated stems brought by the stream. Everything flows, everything is in constant movement, even and especially our eyes and our thoughts.

(Nuno Faria, May 2011)